São João Nepomuceno no diário de Dom Pedro II

CONTINUAÇÃO DE: https://sjnhistoria.wordpress.com/2017/04/27/os-136-anos-da-visita-dos-imperadores-dom-pedro-ii-e-dona-teresa-cristina-a-sao-joao-nepomuceno/

(Artigo de Luís Pontes, de 27 de outubro de 1997 e publicado na Voz de São João naquela ocasião)

O Imperador do Brasil D. Pedro II, acompanhado de sua esposa D. Tereza Cristina, visitou Minas Gerais entre 26 de março e 30 de abril de 1881.

Demorou-se primeiro em cidades do centro de Minas, como Barbacena, São João del Rei, Queluz – atual Conselheiro Lafaiete – e Ouro Preto, então capital da província.

Já no retorno ao Rio de Janeiro, parou em Juiz de Fora, de onde saiu de trem numa excursão de dois dias a São João Nepomuceno, acompanhado, entre outras pessoas, do desembargador Pedro de Alcântara Cerqueira Leite. O desembargador desempenhou um papel importante na construção da estrada de ferro que passava por São João. Devido a isso, dois meses depois de sua vinda a nossa cidade, D. Pedro II concedeu a Cerqueira Leite o título de Barão de São João Nepomuceno.

O título de nobreza de Cerqueira Leite perpetua-se até hoje nos nomes de ruas centrais tanto de nossa cidade quanto de Juiz de Fora. Infelizmente o mesmo não se pode dizer da obra mesma para a qual ele tanto se esforçou e que lhe valeu o reconhecimento imperial: Em meados da década de 70 do século 20, a estrada de ferro de São João seria completamente desmontada, menos de cem anos, portanto, depois de nela ter passado o segundo e último Imperador do Brasil.

Damos a seguir o trecho do diário de D. Pedro relativo aos dois dias de sua visita a São João — em 27 e 28 de abril de 1881 —, conforme está no Anuário do Museu Imperial, vol. XVIII, pág. 69. A escrita nem sempre está  correta, pois são linhas despretensiosas, feitas para a apreciação única do próprio autor das mesmas, durante os exíguos momentos de descanso de uma viagem repleta de compromissos, como se pode ver abaixo:

“27 (4a. fa. )   5  ½  Acordei. Vou ler. Saio às 7h. Caminho conhecido até a Serraria.  Cheguei às 8 ¾ a Juiz de Fora. A cidade tem aumentado muito. Bela avenida com bonitas casas que devem arborizar. Almocei numa destas que é do barão de Cataguazes. Partida do trem às 11h 10’. Nada de novo até Serraria. Aí entramos no trem da União Mineira. Percorremos 84 km até o arraial  –  vila ainda não instalada de São João Nepomuceno. A estrada para subir parte da serra do Macuco tem dois ziguezagues com plataformas. Tem 7 estações pequenas porém bem construídas segundo a aparência. Vista muito bela assim como mato viçoso de Bicas para diante. Descobre-se amplo vale fechado por altas montanhas, e perto de S. João avista-se a alta Serra do Descoberto, de contorno original. Grande número de quilômetros a começar da Serraria, passa a estrada por fazendas de café muito bem plantadas e algumas com casas feitas com bom gosto. Há interrupção  de terras tão boas para voltarem estas [sic]. Vim conversando com o engenheiro Betim cuja direção inteligente e ativa revela-se no modo  por que a estrada foi construída e se conserva tendo trilhos de aço, e com o desembargador Pedro de Alcântara Cerqueira Leite a cuja influência se deve sobretudo à estrada que é de bitola de um metro. Cheguei a S. João às 4h e 20’. Estava decadente mas já ressurge. O juiz de Direito da comarca (Rio Novo) Virgílio de Mello Franco agenciou 3:000$000 para compra de boa casa para as aulas e biblioteca. É um bom prédio. Visitei-o assim como o destinado para as futuras Câmara e cadeia que não é mau e a aula de meninas em muito má casa. Os meninos não estavam presentes. O professor corcunda com quem falei pareceu-me inteligente. As escritas dos meninos que vi eram más. A professora foi retirada por mau procedimento, pelo que ouvi ao Cerqueira Leite. Jantar às 6 ½ . Depois conversei com diversas pessoas. São quase 10 h.

28 (5a. fa.)  Saio às 6 ½ para orar na Igreja e embarcar-me no trem que parte às 7 h. O interior da Igreja não me desagradou. Tem bastante espaço e está limpa. Os trilhos estavam úmidos e nas subidas o trem andava devagar ao principiar a jornada.”


Uma fotografia do Imperador Dom Pedro II e da Imperatriz Dona Teresa Cristina com um de seus netos, Dom Pedro Augusto, tirada possivelmente no Rio de Janeiro ou Petrópolis.

IM_PEDRO II TERESA E PEDRO AUGUSTO

Crédito: https://br.pinterest.com/pin/432978951649220823/

A igreja matriz de São João Nepomuceno, na qual Dom Pedro II entrou para rezar na manhã do dia 28 de abril de 1881. Observa-se que a igreja ainda tinha duas torres, aspecto que manteria até a primeira década do século 20, quando passou a ostentar o formato de uma torre única que conserva até os dias de hoje.

Igreja Matriz

A casa em que Dom Pedro II ficou hospedado, na atual Praça 13 de Maio, à esquerda de quem sobe o morro da Igreja Matriz, e onde então residia o Juiz Virgílio Martins de Mello Franco. Até por volta das décadas de 1970/80, esta casa ainda existia, mas foi então demolida. (Imagem cedida por Jean Menezes do Carmo).

IM_PEDRO II CASA EM QUE FICOU HOSPEDADO

A residência do Comendador José Soares e Dona Prudenciana Faustina de São José (num quadro de Paulo Pavel) e que teria sido, segundo uma hipótese levantada .por este autor, a primeira Casa da Câmara de São João Nepomuceno, construída por volta de 1841 e reformada em 1870. Esta é a casa onde, segundo a tradição oral, foi oferecida uma recepção aos Imperadores. Tal imóvel existia até os primeiros anos do século 21. Por iniciativa deste autor, em 1997 esse imóvel chegou a ser tombado pela Prefeitura são-joanense como patrimônio público, e estava destinado a virar um museu da cidade. Entretanto, por motivos que não cabe aqui comentar, a casa terminou ficando em ruínas e acabou tombando literalmente pouco tempo depois…

IM_CASA DO VO MILU

Os prédios geminados da (então nova) Casa da Câmara e Cadeia, onde fica hoje o Quartel da Polícia Militar de SJN, numa fotografia do belga George Heughebaert, por volta de 1905, do acervo de Paulo Pavel.

Cadeia e Quartel

A praça da estação ferroviária de SJN, onde Dom Pedro desembarcou no dia 27 de abril de 1881, e de onde partiu no dia seguinte. (Também uma foto de G. Heughebaert, do acervo de Paulo Pavel).

 Praça Saldanha Marinho

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